Se no início do ano me perguntassem como esperava começar a minha cobertura de Wimbledon, com uma conferência de imprensa de Serena Williams nunca seria uma das minhas respostas. Mas aqui estamos. Cheguei a Londres com o nascer do sol, levantei a minha credencial e pouco depois lá estava ela, aos 44 anos, de volta ao Media Theatre para antever a 22.ª participação no torneio que venceu em sete ocasiões (a última há uma década).
Por Gaspar Ribeiro Lança, em Londres
Que Serena Williams é esta? é talvez a maior questão à entrada para a 139.ª edição do torneio mais antigo do mundo, quatro anos depois de a ter visto ser surpreendida com estrondo pela quase desconhecida Harmony Tan. Mas vem acompanhada de uma lição: no ténis temos de estar sempre preparados para o inesperado.
O inesperado. Esse adjetivo com várias formas. Como por exemplo mais um apuramento de Jaime Faria, surpreendente não pela forma que atravessa — a melhor da carreira! —, mas porque o fez pela terceira vez esta temporada, já sendo, aos 22 anos, o homem português que mais vezes (cinco) furou o qualifying de um torneio do Grand Slam.
Wimbledon 2026 começa com mais incógnitas do que respostas porque até entre os favoritos há poucas certezas.
O regresso de Serena Williams agita, indiscutivelmente, um quadro feminino com a campeã Iga Swiatek fora de forma, a número um mundial Aryna Sabalenka longe dos melhores dias e a antiga vencedora Elena Rybakina afetada por um par de derrotas desapontantes na preparação.
Jessica Pegula, Karolina Muchova, Linda Noskova e Madison Keys destacaram-se nas semanas de preparação em relva, mas se o fizerem em Wimbledon será inédito: até hoje, nenhuma delas passou dos quartos de final.
Em suma, a norte-americana é a jogadora que todas podiam ter pela frente e que nenhuma queria encontrar — fava que calhou à introvertida Maya Joint, australiana que é 24 anos mais nova (!) e que terá nos ombros o peso de coprotagonizar o mais mediático dos embates da primeira ronda. Ainda que a idade e a falta de competição (jogou apenas dois encontros de pares) tornem difícil imaginar um conto de fadas, se há alguém capaz de o escrever ela chama-se…
No quadro masculino, Jannik Sinner seria o favorito indiscutível, não fosse o descalabro de Paris. Volvido um mês, o número um mundial e campeão em título assegurou ter feito alterações ao plano de treinos para reagir melhor às temperaturas extremas, mas chega a Londres sem a aura de invencibilidade com que abordou o torneio do Grand Slam anterior. À falta de competição entre o Canal da Mancha tenístico, juntam-se inevitáveis dúvidas quanto ao estado físico. E, sendo o seu nome sinónimo de domínio desde o final da temporada passada, não deixa de ser curioso pensar que não vence um Major há 351 dias.
O que fará Novak Djokovic? De olhos postos no 25.º título, é impossível acreditar que o sérvio tenha outros objetivos que não vencer em Wimbledon, possivelmente a derradeira grande chance face à ausência de um dos dois extraterrestres que dominam a atualidade. O próprio garantiu chegar muito mais preparado a Londres do que a Paris, ainda que essa confiança assente no trabalho de bastidores e não na competição.
E os restantes candidatos? Alexander Zverev é finalmente dono de um título do Grand Slam, mas em Wimbledon nunca passou dos oitavos de final. Ben Shelton? Taylor Fritz? É difícil imaginar um campeão diferente se Jannik Sinner estiver de volta à sua plenitude, mas Roland-Garros mostrou-nos que é obrigatório esperar o inesperado.
Para o ténis português, o sorteio não foi simpático: Nuno Borges (contra o qualifier Tristan Boyer) e Jaime Faria (enfrenta Sho Shimabukuro) têm primeiras rondas acessíveis, mas o maiato tem como provável adversário na segunda ronda um certo Jannik Sinner e o lisboeta, que procura a primeira vitória no quadro principal deste Grand Slam, cruza com o vencedor entre Ugo Humbert e Zizou Bergs (curiosamente, adversários também este domingo na final de Eastbourne, ganha pelo segundo).
As respostas para todas as dúvidas surgirão ao longo dos próximos 14 dias dentro da catedral do ténis, onde o inesperado ganha forma e toma conta da história.
Vão cair favoritos e surgir estrelas, vão ser derramadas lágrimas e cantadas vitórias.
Encontro a encontro, jornada a jornada, Wimbledon está de volta. As ruas que ligam a estação de Southfields ao All England Club têm uma última noite de descanso antes de se transformarem numa enorme passadeira até ao anfiteatro dos sonhos, onde não há previsão que supere a realidade.
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