PORTO — Um pedido inesperado transformou-se numa estreia e Grigor Dimitrov viajou até à invicta para jogar em Portugal pela primeira vez. O Eupago Porto Open depressa se transformou numa caça à estrela e o búlgaro, que aterrou na tarde de quinta-feira, desempenhou o papel com distinção ao longo dos três dias seguintes no Monte Aventino, onde distribuiu autógrafos e selfies à descrição antes de abrir o coração numa conversa de antevisão como raras vezes se vê.
“Demorei demasiados anos, é a minha primeira vez aqui. Gostava que as circunstâncias fossem outras, mas estou feliz. [É uma fase] em que tenho de olhar muito pelo meu corpo e lidar com muitas lesões pequenas, tem sido difícil voltar ao caminho certo, mas o desporto é isto, o ténis é isto, a vida é assim e seguimos em frente. A melhor parte do nosso desporto é que todas as semanas temos uma nova oportunidade.”
Foi assim, com uma resposta mais profunda do que a pergunta de lançamento o fazia esperar, que um dos jogadores mais populares do circuito ditou o mote do que aí vinha.
Entusiasmado por estar numa nova cidade e num novo país, Dimitrov abriu o coração: “Essa é a parte mais desafiante e ser capaz de o fazer agora, aos 35 anos, é maravilhoso. Nos últimos dias consegui passear e ser um pouco mais básico, o que ajuda muito. É claro que o grande objetivo ainda é jogar bem e fazer o melhor que conseguir, mas ao mesmo tempo preciso de encontrar um bom balanço.”

“Não tenho nada a provar a ninguém, mas continuo a amar o ténis. […] Todos temos uma relação amor-ódio com este desporto, mas continuar a tentar ao fim de não sei quantos anos é um bom testemunho de que ainda sou capaz de encontrar alegria e paixão no que faço. Se começar a sentir o contrário, pararei de certeza. Não quero perseguir uma ilusão”, deixou claro.
Mais tarde, recuperou o tema e acrescentou que “quando o fim fica mais próximo do que o início não é ideal, mas tens a oportunidade de sentir tudo o que quiseres sentir, de tristeza a nostalgia, felicidade, amargura, raiva. Todas essas emoções. Mas isso é bonito, é bom experienciar essas sensações ao longo da vida, é isto que é viver. Nesse sentido estou em paz comigo próprio.“
Dimitrov aproximou-se do fim quando, aos 34 anos, sofreu a primeira grande lesão da carreira. Uma rotura parcial no músculo peitoral no momento em que liderava por dois sets a zero frente a Jannik Sinner — o futuro campeão — nos oitavos de final de Wimbledon 2025 em pleno Centre Court atirou-o do top 20 a que se habituara para fora do top 100, a razão da vinda ao Porto e tantos outros destinos que noutros anos só ponderaria para férias.

Foi com essa lesão que mudou tudo, mas foi também por causa dela que o outrora apelidado Baby Fed, menino prodígio e e até promessa-que-não-cumpriu-todo-o-potencial ganhou novas perspetivas:
“Tive de fazer as pazes [com o que aconteceu] muito rapidamente. A cicatriz vai sempre ficar, isso é certo. E quem sabe o que teria acontecido… Mas aonteceu isto e é por isso que para mim… como é que o explico, deixem-me encontrar as palavras certas para o explicar porque não é muito fácil. Acho que o mais desafiante foi que não tive tempo para pensar no que aconteceu. Estava tão concentrado na minha recuperação e em tudo o que tinha de fazer que não digeri o que aconteceu. O meu primeiro pensamento foi recuperar e regressar o mais rápido possível. E ao mesmo tempo tinha de o ultrapassar. Como disse, isto aconteceu e vai sempre ficar marcado. Posso demorar mais tempo a regressar [àquele nível], ou posso ficar como estou, mas de qualquer das formas tenho de o aceitar, porque é a realidade do nosso desporto. Quase desejo ter tido uma lesão mais cedo na minha carreira para ser capaz de perceber como lidar melhor com esta. Mas uma coisa em troca da outra e estou muito grato por o meu corpo ter aguentado durante 34 anos e não sentir nada muito grave até este momento. Tenho muito orgulho nisso.”
É a tal corrida própria de que falou recentemente e que reforçou nesta antevisão em Portugal:“É a saúde. Em qualquer aspeto da vida, se tens saúde tens tudo. No último ano e meio enfrentei desgraças suficientes, é extremamente desafiante e com a minha idade não se torna mais fácil, por isso tento encontrar novas formas de aguentar e de aprender algo novo. É por isso que digo que estou a correr a minha própria corrida, não sigo os padrões de antigos jogadores ou coisas que me dizem. Tento encontrar o que funciona para mim para tentar voltar ao nível em que gostava de estar. […] Há muito trabalho que ninguém vê, muitos obstáculos e esses são os meus desafios, a minha própria corrida.”
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