Dormir ao relento para ver Nuno Borges ganhar em Wimbledon — o relato de uma noite na famosa The Queue

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Dormir ao relento para ver Nuno Borges ganhar em Wimbledon — o relato de uma noite na famosa The Queue

Não há experiência como esta: todos os anos, milhares de fãs dormem numa tenda para conseguirem um lugar em Wimbledon, a catedral do ténis. O tenista português Diego Fernandez e a irmã embarcaram numa aventura sem igual no mundo do desporto e acordaram para ver Nuno Borges ganhar, mas não só.

Por Gaspar Ribeiro Lança, em Wimbledon

Tudo começou com um sonho e esse sonho tornou-se em desafio. Entre anos escolares nos Estados Unidos da América, onde estuda Design na Savannah College of Art and Design do estado da Geórgia ao mesmo tempo que compete no circuito universitário, Diego Fernandez viu-se confrontado com “a oportunidade que nunca tinha tido.”

“Sempre gostei de Wimbledon e sempre sonhei vir cá. Este ano, estava de férias e não tinha nada para fazer que fosse prioritário. Há umas semanas tinha dito ao meu pai que queria vir e ele disse-me para viajar com a minha irmã. Sabia que podíamos ir para a Queue e estamos muito felizes por estar aqui”, contou ao Raquetc o jogador formado na LX Team, durante uma conversa que aconteceu em frente à estátua do eterno Fred Perry numa das entradas do Centre Court.

A irmã, Joana, é mais nova. Vai para o 12.º ano e “no início achei que estavam a brincar comigo, mas alinhei em tudo.Assim, com bilhetes de avião comprados à última hora “desde Faro, porque era mais barato”, fizeram juntos uma travessia inesquecível.

Amada por muitos e criticada por outros, a famosa The Queue faz de Wimbledon um dos poucos grandes eventos desportivos onde é possível comprar bilhetes premium no próprio dia. Todas as jornadas, estão disponíveis, por ordem de chegada, 500 bilhetes para o Centre Court, 500 bilhetes para o No. 1 Court e 500 bilhetes para o No. 2 Court, bem como ground passes — os tradicionais bilhetes recinto, estes por muito acessíveis 33 libras (menos de 40 euros) comparadas com os 200 dólares cobrados pelo US Open.

Diego e Joana chegaram ao extenso parque verde do outro lado da Church Road, que liga a estação de Southfields ao All England Club, “por volta das duas e meia da tarde de domingo”, véspera do início do torneio, e receberam dois cartões: 1698 e 1699.

A partir daí, a Queue torna-se num jogo de paciência em que é preciso instalar a tenda ou, no caso dos dois irmãos, dormir ao relento: “Como foi em cima da hora só viemos com uma mala, não trouxemos tenda. Tínhamos umas mantas, mas à noite a temperatura baixou bastante. Além disso, o sol põe-se muito tarde e nasce muito cedo, portanto não foi fácil dormir, mas para estar aqui vale a pena.”

Tentámos dormir, mas acho que não dormimos quase nada. Ficou frio e às 3h da manhã fomos dar uma voltinha, depois jogámos às cartas e já ficámos de pé”, acrescentou Joana, antiga escuteira e por isso habituada a acampar, mas “sempre com uma tenda.”

Um par de horas depois, por volta das 5h da manhã, a equipa de Wimbledon acorda os resistentes para que o material de campismo seja armazenado e a derradeira fila se componha.

Mas como é uma noite na Queue? “Trouxemos umas cartas e tentámos passar o tempo da melhor maneira possível. O ambiente é muito engraçado. Há malta que vem de todo o Mundo, os nossos vizinhos eram italianos e franceses. As pessoas trazem cartas, raquetas, frisbees, entretêm-se como podem e é bastante divertido.”

Em suma, uma experiência “incrível” que “sem dúvida” repetiam, ainda que “talvez mais preparados”, porque “quem faz por gosto não cansa” e neste caso a recompensa foi duplamente dourada: durante a tarde viram de perto Nuno Borges celebrar a 20.ª vitória da carreira em quadros principais de torneios do Grand Slam e à noite ainda conseguiram resgatar dois bilhetes para o Centre Court, onde Novak Djokovic venceu Wu Yibing em quatro sets a meia-hora do recolher obrigatório imposto para respeitar o descanso dos moradores.

A meio do curso do outro lado do Atlântico, Diego Fernandez mantém “tudo em aberto” para quando chegar a hora de erguer o canudo e espera “que o futuro me traga algumas surpresas agradáveis.”

Ao lado, a irmã Joana exclamou, sorridente: “Espero poder acompanhá-lo aqui daqui a uns anos.”

Para já, esta grande história já podem contar.

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