OEIRAS — Kirsten Flipkens prefere pegar na raqueta de padel quando quer divertir-se, mas só guarda boas memórias do que fez com a raqueta de ténis e nem hesita em afirmar que repetia tudo se voltasse atrás. Agora com 40 anos, a belga trocou a carreira de jogadora pela de treinadora e, com a calma de quem atingiu a felicidade e a estabilidade, senta-se para uma longa conversa depois de mais uma passagem por Portugal, onde esteve a acompanhar a compatriota Greet Minnen no Women’s Indoor Oeiras Open.
“Começámos a trabalhar juntas na pré-época, mas este é apenas o segundo torneio em que viajo com ela. Não estou a viajar a full-time, vou fazer entre seis a oito semanas com a Greet e outras seis a oito semanas com a Hanne Vandewinkel”, explicou após a eliminação da pupila mais velha na segunda ronda do primeiro de dois WTA 125 que a Federação Portuguesa de Ténis promove no Jamor — optaram por não disputar o segundo, por isso a conversa acontece horas antes de embarcarem de volta a casa.
Flipkens foi número 13 mundial de singulares em agosto de 2013, um mês depois de ter chegado às meias-finais de Wimbledon que descreve como “a melhor memória da carreira”.
“Foi o meu maior feito e fui reconhecida por isso na Bélgica ao ser distinguida como atleta do ano. É um reconhecimento muito bonito. E também os Jogos Olímpicos de 2016, quando joguei contra a Venus Williams no Rio de Janeiro. Foi uma experiência muito boa e ganhei esse encontro por 7-6 no terceiro set depois de mais de três horas. São memórias que nunca vou esquecer, tal como várias experiências na Fed Cup [atual Billie Jean King Cup] com a Kim Clijsters e a Justine Henin. Sou uma sortuda e estou muito agradecida por ter passado esses momentos com elas“, acrescentou.
Os mais de 20 anos como profissional entre as melhores do mundo deram frutos importantes para compreender a tranquilidade que se apodera do discurso e da forma de viver de Flipkens.
Quando não está a viajar, concentra-se num triângulo entre a casa, o centro de treinos da federação belga na região de Ixelles, perto de Bruxelas, onde trabalha com Minnen, e a academia de Vandewinkel em Hasselt, distâncias curtas que facilitam a coordenação e a deixam com tempo para tudo, inclusive jogar padel: “É o meu novo desporto favorito. Estive 20 anos no circuito profissional [de ténis], por isso se me convidarem para jogar, provavelmente digo que não. Mas se me convidarem para o padel, estou sempre in. Jogo ténis se tiver um objetivo, como um torneio de lendas ou interclubes, caso contrário prefiro o padel.”
No entanto, Flipkens garante que aproveitou até ao fim a aventura que a levou a dar várias voltas ao mundo: “Se não te divertes a fazer o que fazes, é melhor parares. Eu aproveitei a minha carreira até ao último momento, até à última bola que joguei. Não fazia sentido se não me divertisse, mas não tenho saudades. Continuo a gostar de fazer algumas viagens, sobretudo para ajudar outros jogadores. Gosto de partilhar a minha experiência e dar conselhos técnicos e mentais, é bom ser capaz de retribuir.”
Por isso, foi com bastante naturalidade que fez a transição de jogadora para treinadora, neste caso tão suave quanto possível graças ao convite da checa Karolina Muchova: “Quando jogávamos pares juntas ela perguntou-me se eu a podia ajudar nos torneios em que coincidíamos. Depois deixei de jogar e passado um ano, ou um ano e meio ela convidou-me para me juntar novamente à equipa e foi assim que aconteceu, mas nos últimos anos da minha carreira já sentia que seria algo que faria quando deixasse de ser jogadora. Tinha notas de todas as jogadoras no computador, já analisava as minhas adversárias como treinadora para mim própria e é muito bom agora ser capaz de o fazer para ajudar outras jogadoras.“
E o que diria a treinadora Flipkens à jogadora Flipkens? “Teria trabalhado mais com um mental coach. No início da minha carreira comecei por fazê-lo, mas não estava muito aberta a isso. Quando ficas mais velha, apercebes-te cada vez mais da importância de estar mentalmente fresco e de saberes como acalmar-te ou ter alguns rituais no teu jogo.” Preocupada com os efeitos do mundo das apostas na saúde mental dos mais novos, destacou ainda a importância “de trabalharem com as pessoas certas” para conseguirem abstrair-se de um inimigo invisível.
Na hora da despedida, um modo de vida como mensagem para todos: “Sinceramente, estou muito feliz neste momento e muito agradecida porque todas as pessoas à minha volta estão saudáveis. Pode parecer uma resposta muito básica, mas é o mais importante para mim. Não tenho grandes sonhos ou objetivos. Estou a aproveitar a vida, a fazer o que adoro fazer. Tenho a estabilidade financeira para fazer o que quero e neste momento o que quero é ajudar jogadores. É isso que mais gosto de fazer. E o mais importante para mim é aproveitar a vida. Temos ouvido muitas histórias nas últimas semanas e o mais importante é ser feliz.”
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