Esplendor na Relva | O homem que levou Wimbledon para as bancadas: Pat Cash e a celebração que mudou o ténis

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Esplendor na Relva | O homem que levou Wimbledon para as bancadas: Pat Cash e a celebração que mudou o ténis

No imaginário coletivo do ténis existem imagens que acabam por adquirir um significado ainda maior do que aquele que tinham no momento em que foram captadas — e que se transformam em instantâneos para a eternidade. A mais famosa fotografia de uma celebração tenística será a de Bjorn Borg, ajoelhado, após bater o rival John McEnroe na épica final de Wimbledon de 1980, que continuo a considerar como o mais relevante encontro de ténis de todos os tempos. A partir daí começaram a ver-se muitos jogadores a ajoelharem-se logo após ganharem um torneio do Grand Slam, ou um título significante. Roger Federer ajoelhou-se quando ganhou o seu primeiro título de Wimbledon em 2003, mas deitou-se quando ganhou o segundo em 2004 e esse passou a ser o padrão recorrente que se vê hoje em dia — um jogador deixar-se cair no court após o match point, como sucedeu recentemente em Roland Garros com Alexander Zverev.

Mas, no imaginário de Wimbledon, há uma outra comemoração famosa que marcou para sempre as celebrações dos campeões e fez escola no circuito. Não a celebração no momento exato do triunfo, mas pouco depois e em boa companhia. Como aquela que sucedeu na tarde de 5 de julho de 1987, e que tão bem recordo de ver na televisão da sala de estar dos meus pais, em Coimbra. E foi também na televisão, mas em Londres e na semana passada, que vi o extraordinário embate dos 1/16 do Campeonato do Mundo entre a Argentina e Cabo Verde, coroado por aquele fantabulástico golo do Sidny Cabral que o pôs a correr em direção às bancadas para subir uns degraus no meio do público e celebrar com a sua namorada. Nesse momento, e perante algo nunca visto no futebol, os comentadores da ITV disseram que estavam perante uma comemoração «ao estilo de Wimbledon» e mais tarde completaram essa ideia mencionando especificamente a lendária comemoração de Pat Cash, há 39 anos.

Fiquei obviamente agradado com a analogia tenística e a referência a um episódio tão emblemático de Wimbledon numa transmissão de futebol, e disse para comigo que tinha de o contar ao próprio Pat Cash. Pensei em enviar-lhe uma mensagem no WhatsApp mas, com prolongamento e tudo, esse embate Argentina-Cabo Verde acabou a altas horas da madrugada e pensei em fazê-lo durante o dia. Mas não o fiz; o dia seguinte foi tão preenchido que nem me lembrei até que, quando me estava a despedir do meu colega Richard Evans (um dos decanos do jornalismo de ténis), alguém me toca no ombro e… coincidência, era o próprio Pat Cash!

Disse-lhe então que o nome dele tinha vindo à baila num comentário do Campeonato do Mundo de futebol e ele ficou muito admirado — pelos vistos ninguém lho tinha contado ainda. Depois encarreguei-me de lhe enviar, por WhatsApp, o link do YouTube da ITV com a menção à sua celebração de Wimbledon e que ele seguramente terá apreciado… embora apenas me tenha respondido «Unbelievable goal!». De qualquer das formas, na edição do próximo ano comemoram-se quatro décadas sobre o seu triunfo; se entrevistei o australiano pela primeira vez em 1994, seguramente que no próximo ano terei todos os motivos para o voltar a entrevistar.

Para já, o que conta para esta crónica é mesmo o legado que essa tão sui generis quanto inesperada comemoração originou. Wimbledon já conhecia celebrações memoráveis, como o ajoelhar de Bjorn Borg em 1980 (uma imagem bem adequada à Catedral do Ténis) ou o êxtase de braços levantados do teenager Boris Becker em 1985. Antes disso, havia mesmo jogadores que chegavam a atirar a raqueta para o ar e depois saltavam a rede para ir cumprimentar o adversário. Ou então lidavam com a dimensão do momento de maneira completamente fleumática. Mas nenhum abandonara o palco da vitória para ir celebrar com aqueles que o tinham ajudado a conquistá-la.

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Quase quarenta anos depois, a imagem de Pat Cash a subir as bancadas do Centre Court parece tão natural que custa acreditar que tenha representado uma novidade absoluta e mesmo causado alguma celeuma. Hoje em dia, a ida ao players box para celebrar faz parte da gramática emocional do ténis profissional. Os abraços ao treinador, aos familiares e aos restantes membros da equipa são vistos como a conclusão lógica de uma grande vitória e viu-se isso recentemente em Roland Garros, tanto com Mirra Andreeva como com Alexander Zverev. Em julho de 1987, porém, essa linguagem ainda não existia. A vitória pertencia exclusivamente ao jogador e o court era, do primeiro ao último ponto e com a cerimónia de entrega de prémios que se seguia, o espaço onde a narrativa começava e terminava. As outras celebrações vinham depois, normalmente nos bastidores.

Mas seria simplista afirmar que Pat Cash ‘inventou’ a celebração moderna no ténis com essa ida ao Players Box. A história raramente se deixa explicar por um único momento ou por um único protagonista. Os desportos evoluem através de mudanças graduais, de pequenas ruturas que acabam por cristalizar numa imagem suficientemente forte para representar uma transformação muito mais ampla. A ida do australiano da bandana axadrezada para as bancadas não só criou uma nova cultura de celebração, mas deu-lhe uma forma visível e inesquecível. Mais do que um gesto original, foi o instante em que o ténis começou a aceitar que a vitória de um jogador podia ser partilhada, em público, com aqueles que o tinham ajudado a construí-la.

O próprio Pat Cash sempre recusou a ideia de ter querido marcar a história do ténis com a sua subida ao Players Box. Durante muitos anos, a narrativa dominante apresentou a subida como uma explosão espontânea de alegria, consequência inevitável da conquista do maior título e depois de ter ultrapassado uma grave lesão que travou a sua carreira (já tinha sido semifinalista de Wimbledon e do US Open em 1984, para regressar em força em 1986 com o acesso à final do Open da Austrália e a vitória na Taça Davis). A realidade é mais interessante. Na sua autobiografia Uncovered, publicada em 2001, o australiano revela que subir às bancadas não foi uma decisão tomada imediatamente depois do match-point, mas uma ideia que já o acompanhava há algum tempo. «Something I had been thinking about and planning for months» escreveu, desmontando o mito da improvisação absoluta. A emoção seria espontânea; o destino da corrida, esse, estava escolhido muito antes.

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Tal revelação altera significativamente a leitura de tão marcante momento: afinal, não se tratou de alguém que, dominado pela adrenalina, perdeu momentaneamente a noção do protocolo. Estamos perante um jogador que, durante meses, imaginou como gostaria de celebrar caso algum dia conquistasse o torneio que mais venerava. É um detalhe aparentemente menor, mas que ajuda a compreender a profundidade emocional do gesto. Pat Cash não queria apenas ganhar Wimbledon; queria que o instante da vitória refletisse aquilo que acreditava ser o verdadeiro significado desse triunfo.

A final em si justificava plenamente a intensidade da descarga emocional. Do outro lado da rede estava Ivan Lendl, então número um do mundo e figura dominante de uma grande parte da década de oitenta. Também o bully que, quando ele ainda era júnior, lhe rasgou as sapatilhas Diadora no balneário — e Pat Cash, que já tinha um físico robusto na altura, quase lhe dava uma tareia. Alguém que queria cultivar a imagem de implacável e o certo é que, na altura, ninguém simbolizava melhor a transformação do ténis numa atividade quase científica. A preparação física rigorosa, a disciplina alimentar, a análise meticulosa dos adversários e o autocontrolo permanente tinham feito do checo tornado americano o paradigma do profissional moderno. Faltava-lhe apenas Wimbledon, o único título do Grand Slam que continuava a escapar-lhe apesar das sucessivas tentativas para adaptar o seu jogo à relva do All England Club.

Pat Cash representava praticamente o oposto de Ivan Lendl. O australiano construíra a reputação através de um ténis ofensivo, assente num serviço poderoso e numa das melhores combinações de serviço-vólei da sua geração, perfeitamente adaptada às características da relva e na senda da escola dos grandes campeões dos Antípodas. Era um jogador exuberante e fisicamente corajoso, disposto a assumir riscos constantes para encurtar os pontos e retirar tempo aos adversários. Mas, ao contrário dos antecessores australianos, não tinha propriamente a imagem de um gentleman: era um rock n’ roller, temperamental, duro.

A final confirmou muitas das expectativas técnicas. Pat Cash entrou determinado a impedir que Ivan Lendl controlasse o ritmo das trocas de bola a partir do fundo do court e executou com notável disciplina um plano de jogo baseado na pressão constante sobre o serviço e na procura sistemática da rede. Curiosamente, no primeiro set foram dois lobs em momentos cruciais a fazer a diferença. Na segunda partida não perdeu um único ponto no seu serviço. A conclusão por 7-6 (7-5), 6-2 e 7-5 refletiu a superioridade do australiano numa superfície onde o seu estilo encontrava a expressão máxima. Quando o último vólei de direita cruzado aterrou no court deixado em aberto, Pat Cash tornou realidade uma imagem que há meses transportava consigo.

Mais tarde confessaria que, durante alguns segundos, perdeu completamente a consciência do ambiente que o rodeava: «Strangely I was totally oblivious to all of them for a few moments». À sua volta estavam os 12.433 espectadores do Centre Court, os membros da família real, os dirigentes do All England Club, jornalistas de todo o mundo e milhões de telespectadores. Mas nada disso parecia existir. O seu olhar procurava apenas um ponto das bancadas, onde estavam reunidos aqueles que tinham acompanhado o percurso até ali. Como escreveria na mesma passagem da autobiografia, «I had to be up there with them».

É essa frase que verdadeiramente distingue a celebração de Pat Cash de todas as que a precederam. Não porque tenha sido o primeiro campeão da história do desporto a procurar um abraço familiar, mas porque foi o primeiro a fazê-lo naquele palco, naquele contexto e perante uma audiência planetária, transformando um gesto íntimo numa imagem pública de enorme poder simbólico. Durante décadas, o ténis cultivara a ideia do campeão como uma figura essencialmente solitária, encerrada dentro das linhas do court. Os treinadores, familiares e amigos pertenciam ao cenário, mas não ao momento culminante da vitória. Pat Cash alterou essa perspetiva sem o proclamar. Limitou-se a agir de acordo com aquilo que sentia. E o modo como quebrou um rígido protocolo de membros da família real foi simultaneamente polémico e refrescante. O mundo do ténis adorou.

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Goran Ivanisevic repetiu essa ‘escalada’ até à Players Box aquando do seu épico triunfo em 2001. Rafael Nadal fez o mesmo após outra das melhores e mais dramáticas finais de todos os tempos, a de 2008 perante o arqui-rival Roger Federer — com uma nuance acrescida: seguidamente passeou-se por cima do telhado da cabine de comentários da BBC para se dirigir à Royal Box e cumprimentar o então Príncipe Filipe (hoje rei) e a sua mulher. A subida aos camarotes estendeu-se do Centre Court de Wimbledon aos restantes palcos principais dos outros torneios do Grand Slam. Nem sempre acontece, mas acontece com alguma frequência… e tudo por causa do que fez Pat Cash, há 39 anos.

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