Serena Williams regressou ao ténis com 44 anos, fez-nos acreditar que podia vencer Maya Joint, uma adversária 24 anos mais nova, e isso diz muito sobre o legado desta lenda viva, mas até para ela há um limite e Wimbledon foi, acima de tudo, uma página simbólica numa carreira histórica.
Por Gaspar Ribeiro Lança, em Wimbledon
Este regresso com contornos surrealistas tornou-se, por si só, um feito. Quatro anos depois de competir pela última vez, sem rodagem prévia a não ser dois encontros de pares (um em Londres, outro em Berlim) e um inevitável mar de expetativas anexado, Serena Williams tentou o impossível.
Entre conferências de imprensa disse e dirá que o fez, sobretudo, pela vontade. Conhecendo-a, é difícil acreditar no que esconde por trás de uma poker face sempre pouco dada a conferências de imprensa — fez questão de o relembrar na antevisão em pleno Media Theater.
A mais nova das duas irmãs que quebraram preconceitos e rescreveram a história passou a carreira a perseguir recordes e dificilmente aceitaria submeter-se a tudo o que um regresso ao mais alto nível implica sem ser fiel a ela própria.
Igualar a marca de Margaret Court pode já não ser a prioridade número 1 de Serena Williams, tantas foram as oportunidades que lhe escaparam quando ainda era ela a número 1 entre as favoritas, mas continua a fazer parte do ADN.
Era obrigatório, isso sim, voltar mais relaxada, dando ao corpo a oportunidade de lidar com toda a ansiedade. Esse guião, cumpriu-o à risca: primeiro ao descartar os rumores de que estaria a preparar um regresso, depois ao ensaiá-lo apenas na variante de pares.
Serena Williams controlou todas as variáveis possíveis e assim continuará caso pretenda estender este regresso até ao US Open — terminar agora seria ainda mais surpreendente do que decidir voltar aos 44 anos.
Mas nem ela tem o poder de contrariar a idade ou parar o relógio.
Contra uma adversária que ainda não era nascida quando ganhou sete dos seus 23 títulos do Grand Slam, faltaram, sobretudo, pernas para acompanhar os constantes ziguezagues da bola amarela. A potência continua lá, quer no serviço, quer nos golpes de fundo do campo em que ainda consegue estar bem apoiada, mas a movimentação lenta já não esconde o passar dos anos.
Sem surpresa, mas ainda assim surpreendente.
Porque Serena Williams nos habituou, durante décadas, a que para ela tudo é possível. Acreditarmos que aos 44 anos, e sem embalo competitivo, era a favorita perante uma adversária 24 anos mais nova foi um enorme reconhecimento desse legado. Talvez o maior possível.
Os contra-breaks que celebrou de punho em riste no segundo set para dar a uma exibição digna um parcial decisivo — antes de ficar sem forças — reforçaram-no.
Uma coisa é certa: se realmente quiser divertir-se, a passagem fugaz pela catedral do ténis demonstrou que Serena Williams ainda detém capacidades para o fazer.
Imaginá-la a repetir algo grandioso, ao longo de duas semanas com sete encontros face a adversárias com menos uma ou duas décadas, é toda uma outra conversa. E nem Serena Williams está pronta para a ter.
Para terminar, algumas notas:
Mesmo com 15 derrotas nos 18 encontros realizados este ano, Maya Joint foi altamente subestimada por todos. A australiana que esta terça-feira se apresentou no court mais importante do mundo foi uma versão muito mais parecida àquela que, há um ano, conquistou a relva de Eastbourne. Além disso, volto a dizer, 20 anos não são 44 e a vantagem com que partia era flagrante.
Lamentavelmente, Serena Williams expôs o seu lado mais arrogante nos instantes finais. Dedicou menos de um segundo a cumprimentar a adversária à rede, fazendo-o de braço bem esticado para aumentar a distância, e alémde um breve olhar nem uma palavra lhe dedicou.
Pouco depois, abdicou da conferência de imprensa obrigatória num torneio que lhe estendeu a passadeira para o regresso e os seus representantes fizeram chegar aos jornalistas um parágrafo sem personalidade que qualquer criança seria capaz de escrever. Faltou-lhe chá.
O que achou dessa notícia? Deixe um comentário abaixo e/ou compartilhe em suas redes sociais. Assim conseguiremos informar mais pessoas sobre o que acontece no mundo do tênis!
Convidamos você a clicar em Página de Parceiros para conhecer os parceiros do Tênis Portal e acessar seus sites.
Esta notícia foi originalmente publicada em: Fonte original
