As 12 badaladas encerraram a história de Gael Monfils em Roland-Garros. O eterno showman conquistou tudo o que os títulos não garantem: carinho, reconhecimento dos pares e popularidade mundial.
Por Gaspar Ribeiro Lança, em Paris
Era suposto ser apenas mais um dia de primeira ronda, mas os deuses do ténis entenderam transformar uma segunda-feira quente em Paris no adeus de Stan Wawrinka e Gael Monfils à catedral da terra batida. A dois tempos, o suíço — com o melhor portfólio — e o francês — ainda mais amado — concluíram os respetivos livros no torneio que sonharam jogar.
Campeão em 2015, Wawrinka disse adeus ainda o sol brilhava (e queimava) no Court Simonne-Mathieu. A despedida foi tudo o que o quarentão merecia e a derrota na primeira ronda só foi surpreendente por acontecer frente ao lucky loser Jesper de Jong, chamado para o lugar de Arthur Fils (quão inesquecível teria sido esse encontro…).
Horas depois, o adeus de Monfils tornou-se numa mistura de emoções. Só podia ser assim. Tantas vezes tão perto, tantas vezes tão longe, o mais carismático dos tenistas gauleses que formaram a segunda geração de mosqueteiros esteve entre a espada e a parede, ameaçou mais uma das suas típicas recuperações épicas e morreu na praia, despedindo-se do Court Philippe-Chatrier com um pesado 6-0 no último set.
O culpado foi Hugo Gaston, primeiro e único compatriota a derrotá-lo em Roland-Garros. O desfecho ainda fez de La Monf o jogador com mais encontros de cinco sets (17) disputados em toda a história do torneio, ultrapassando in extremis o amigo Stan the Man.
Numa noite quente, Monfils demorou a ser Monfils e a aquecer as bancadas. Talvez por estar a enfrentar um compatriota, talvez por já não ter no corpo a capacidade de explosão de outros tempos. Todos queriam vê-lo a celebrar uma última vez, mas este não era um conto de fadas.
Gaston foi assistido várias vezes, primeiro à mão e depois à lombar. Cedeu, pareceu estar perto de tornar-se na última vítima das reviravoltas do compatriota, mas lá voltou a tempo. Tempo que Monfils já não teve.

Poucos foram os momentos em que o encontro encheu os olhos, ainda que os franceses tenham aproveitado todas as oportunidades para puxar pelos seus. Raras vezes se viu Gaston e Monfils inspirados ao mesmo tempo, os amorties do mais novo a intercalarem com os deslizes e pancadas explosivas do mais velho. Os 14 anos de diferença só se fizeram sentir na reta final, já Jo-Wilfried Tsonga, Gilles Simon e Richard Gasquet estavam prontos para homenagear o amigo ao lado de Amélie Mauresmo e Gilles Moretton.
A renovação de Roland-Garros trouxe um novo tom às cerimónias de despedida e esta não foi exceção. Monfils teve direito ao troféu de despedida com camadas dos materiais que fazem os courts, viu imagens de uma carreira distinta e emocionou-se. Ao falar dos pais, do irmão que pouco viu crescer, das irmãs mais novas, da filha, dos inúmeros treinadores, dos amigos e da mulher. Elina Svitolina estava na primeira fila do camarote, horas depois de ter ganho a primeira ronda num ano em que faz parte das candidatas, e foi para ela a parte mais emocionada do discurso.
Depois, os ecrãs gigantes passaram um conjunto de mensagens que refletem a carreira de Gael Monfils: uma que todos os colegas de circuito reconhecem e elogiam, desde Roger Federer, Rafael Nadal, Novak Djokovic e Stan Wawrinka aos amigos mosqueteiros, mas também — e aí está o legado — dos mais novos Arthur Fils, Ugo Humbert e tantos outros que formam toda uma geração que cresceu a sonhar ser como ele.
Como Elina Svitolina escreveu na carta para a filha publicada esta semana (“O teu pai, o Mágico”) no website The Players Tribune…
“A primeira coisa que deves saber é que Gael Monfils foi um dos melhores shot-makers que alguém já viu. Outros foram mais consistentes, ou cometeram menos erros… mas quando dizes que foram grandes jogadores talvez precises de fazer uma longa explicação. Mas com o teu pai? Com o teu pai é tão simples. Podes mostrar a alguém um único ponto, ou uma única pancada… e eles vão perceber. Porque o teu pai, numa pancada, num momento, conseguia alcançar o que poucos atletas alguma vez vão alcançar: ele conseguia fazer as pessoas sentir algo. Isso também é magia. E o teu pai era o melhor mágico.”
Felizmente, este foi apenas o adeus de Gael Monfils a Roland-Garros. A despedida definitiva, essa, também acontecerá em Paris, mas no ATP Masters 1000 que encerra a temporada e que este ano acontece pela primeira vez na moderna arena de La Défense, a apenas 8 km. Até lá, ainda terá mais uns truques na manga.
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